Texto "cool" de Selton Mello soa sem graça e enfraquece a transmissão do VMB
As festas de premiação do meio musical, do milionário Grammy ao nosso VMB, têm formatos muito parecidos.
Em favor dos produtores, convém reconhecer que não há mesmo muito que inovar, pois o programa não pode ser demasiado longo, sob pena de afugentar os telespectadores. E há ainda muitas tarefas obrigatórias a serem feitas como listar os competidores em cada categoria, dar uma amostra de seu trabalho, mostrar a reação dos vencedores ao anúncio do prêmio, seus agradecimentos, a comemoração... Além disso, é imprescindível haver números musicais para prender a grande parcela da audiência, que não dá bola para quem vai ganhar e só assiste ao programa por dois motivos: o prazer "voyeurístico" de espiar artistas agindo e reagindo feito "pessoas comuns" e, sobretudo, curtir um sonzinho grátis e ao vivo no conforto do lar.
Dadas essas limitações, o que dá sabor ao VMB e o diferencia dos anteriores são os temperos: apresentadores, texto e a maneira de anunciar os prêmios. Nesses aspectos, devido principalmente ao incontrolável impulso da MTV, de tentar fazer tudo de um jeito descolado, o programa exibido na noite desta quinta-feira (29) não foi muito feliz. O ator Selton Mello, escolhido mestre de cerimônias pelo jeito "cool", palavra que afinal define o "mundo MTV" --ou o que este pretende ser-- sofreu quando o roteiro tentou forçar essa característica. Exemplos foram sua tentativa de imitação de Silvio Santos, com um murchinho "vocês querem prêmio?", a desajeitada "regência" de uma batida de bateria e o texto "dramático" com que falou da tensão por competir em uma das categorias (dirigiu um clipe). A verdade é que, em quase todo o tempo, os redatores trataram de manter o apresentador metido em enrascadas. Mello teve de simular uma conversa com a própria mãe ao celular, fez um trocadilho bobo com o nome da banda System of a Down, deu uma aborrecida definição "pseudo-acadêmica" para "pop" e cantou "sinhozinho / em Neverland / curtindo criancinhas / em Neverland", ao som de "Billlie Jean", em deslocada alusão a Michael Jackson. Mais do que qualquer dado subjetivo, a escassez de risadas ao longo da transmissão provou que há textos que nem a mais benevolente platéia consegue engolir. E, nesse ponto, tiveram bastante sorte as duplas de músicos que anunciaram os premiados, pois suas falas eram tão curtas que não havia como "enfeitá-las". Fraca também foi a performance de Marco Bianchi e Paulo Bonfá com canções escolares americanas. Elas soam engraçadinhas como improviso, nas transmissões do campeonato do programa "Rock & Gol", mas, como número musical "de verdade" e sabotadas por legendas fora de sincronismo, tornaram-se pura pisada de bola.
Ainda no departamento falta de senso, não podia faltar o inevitável Marcos Mion imitando Pablo --felizmente por pouco tempo--, dublador oficial do "Qual é a Música", de Silvio Santos. O dono do SBT merecia, aliás, um prêmio de "maior inspirador da noite", pois também foi imitado ao final do programa em um número de João Gordo e Zeca Pagodinho, que parodiaram com conotações políticas a musiquinha "... fulano de tal é coisa nossa..." com que SS chamava jurados ao palco. Não sendo próprio deste espaço à crítica musical, o colunista resiste à tentação de comentar prêmios e performances. Mas cabe dizer genericamente que, como entretenimento, o VMB foi bem agradável em trechos musicais, e até alguns desabafos dos premiados foram divertidos -como D2, premiado na categoria MPB, dizer que detesta o gênero. Mas para ver o resto, as interligações entre prêmios e performances, onde o pobre Mello trabalhou sob as pancadas do roteiro, só mesmo repetindo a letra dos Ramones, que a "Banda dos Sonhos" tocou: "I Wanna Be Sedated" ("Quero ser sedado").
|
|
|