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25/06/2010 - 14h31

Quatro anos depois, amigos ainda choram a ausência de Bussunda

FÁBIA OLIVEIRA
Do UOL, no Rio

Divulgação/TV Globo

Turma do "Casseta & Planeta Urgente!" se reúne (2003)

Na Copa do Mundo de 2006, mais precisamente no dia 17 de junho, o Brasil perdia um grande ídolo:  Bussunda morria na Alemanha, vítima de ataque cardíaco. E, nesta sexta-feira (25), o irreverente humorista completaria 47 anos. Para os amigos do "Casseta & Planeta Urgente!", os anos que passaram não foram capazes de diminuir a  falta do "filho caçula". Para Cláudio Manoel, que conviveu 30 anos com Cláudio Besserman Vianna -nome verdadeiro de Bussunda-  a dor da perda permanecerá para sempre em seu coração. "Ele foi padrinho do meu casamento. Quando separei da minha primeira mulher, fui morar com ele. E, quando ela faleceu, Bussunda estava comigo. Nós tínhamos uma vida juntos", contou.

A "casseta" Maria Paula foi a que menos conviveu com Bussunda porque foi a última a integrar o grupo. Apesar disso, sente muito a falta do amigo. O que lhe conforta é que, dia 25 de junho também é aniversário do filho caçula da humorista, Felipe. "Nesta sexta e em todos os próximos anos, vamos comemorar a data com muita alegria no coração, sabendo que o universo arrumou um jeito de Bussunda estar sim, perto de mim nos momentos mais especiais da minha vida", observa.   

O jornalista Guilherme Fiúza, que escreveu "Bussunda - A Vida do Casseta", não chegou a conhecer o humorista. Mas sente falta do que não partilhou com ele. "Bussunda não era quem mais me chamava a atenção no 'Casseta & Planeta'. E também nunca cruzei com ele pelo Rio de Janeiro. Escrevendo o livro, conheci um cara engraçado ao natural. Senti falta do que nunca tive: a amizade dele", afirmou. Ao colher os depoimentos dos cassetas para escrever a biografia, muito material ficou de fora. Porque, como disse Cláudio Manoel no primeiro encontro com Fiúza, "talvez Bussunda não coubesse num livro". O escritor cedeu, com exclusividade para o UOL, boas histórias de cada companheiro de vida do humorista que não entraram na biografia.

Beto Silva: "O Bussunda não escolheu o apartamento dele porque era uma boa cobertura com vista pra Lagoa. Escolheu porque era do lado do Flamengo. Ele nunca disse isso, mas eu tenho certeza. O Flamengo pra ele era uma paixão. O futebol era uma paixão, aparecia em tudo na vida dele. Tinha um locutor de rádio que narrava os gols assim: 'Cutuca que dá... E deeeu!' Quando a gente era solteiro e morava junto, uma vez o Bussunda foi sair com uma menina que ele tava azarando, e antes de bater a porta de casa gritou: 'Cutuca que dá!' E foi embora.
Às 4h da manhã o telefone tocou, eu tava dormindo e atendi assustado. Era o Bussunda, só pra completar a frase: - E deeeu!' Ele tinha ficado com a menina, e precisava narrar o gol ao vivo."

Marcelo Madureira:
"Todos nós fomos bons alunos na escola, estudiosos. Com exceção do Bussunda, que era o menos chegado à escola formal. No grupo todo mundo lê pra cacete, mesmo o Bussunda, até porque na casa dele sempre houve um ambiente intelectual de grande densidade, muito influenciado pela mãe e o pai dele, pessoas adoráveis. Uma vez o Bussunda fez uma viagem de cargueiro para a Europa com o Cláudio Manoel e outro amigo nosso, o Dudu. O 'Casseta & Planeta' ainda não existia. Bussunda ficou lá, rolando pela Europa até o último centavo. Quando Helena, mãe dele, soube que ele ia voltar pro Brasil, começou a telefonar pros amigos dele. Me lembro dela dizendo: 'Vem almoçar aqui em casa. O Bussunda vai voltar'. Fui ao almoço, mas só entendi o convite quando cheguei lá. Bussunda ainda não tinha chegado ao Brasil. E a Helena, meio sem jeito, queria pedir para que a gente convencesse o Bussunda a voltar a estudar. E, se possível, a terminar a faculdade... Infelizmente não cumprimos a missão, e nem poderíamos. Bussunda era inconvencível."

Cláudio Manoel
: "Uma vez o Bussunda e eu fomos fazer uma matéria sobre esqui no Vale Nevado. A gente não esquiava p... nenhuma. Tivemos umas aulas básicas, e no terceiro dia de gravação o Bussunda começou a se incomodar comigo. Achou que eu tava esquiando rápido demais. 'Pra que isso? Tu é viciado em adrenalina?'. Eu ainda argumentei com ele que o esqui devagarzinho não faz sentido, não dá nem pra você entender a semântica do troço. Mas não adiantou. Ele não entendia como alguém podia fazer alguma coisa em ritmo acelerado por opção... Era contra a adrenalina. Nas peladas, quando o time dele perdia, ele explicava tranquilamente: 'Claro. Quem corre ganha de quem não corre. Eu não vim aqui pra ganhar, vim pra não correr.'"

Hubert:
"Eu fazia ilustrações pro house organ da Ipiranga, e lá conheci o Luiz Noronha, que estudou com o Bussunda na ECO. Ele me mostrou a 'Casseta Popular'. Achei engraçado e falei: Vou chamar esses caras pra fazer um texto pro ‘Planeta Diário’. Eu não conhecia o Bussunda. Ele já era um figuraça... Gordo, com um cabelão... Era famoso no mundo punk do Rio, naquele circuito do Circo Voador. Aí o Bussunda chegou lá na redação do 'Planeta' com o Marcelo Madureira, mostramos pra eles o jornal, eles gostaram e o Bussunda falou: 'Me arruma um estágio aí'. A gente chamou ele pra fazer uma fotonovela, 'Dona Flor e seus Dois Maridos', contracenando com Lobão. Numa das cenas ele tinha que abraçar o Lobão, que era um popstar, galã, e quando botou a mão na cintura dele estranhou: Lobão tava usando cinta, pra dar uma segurada na barriga. No final da sessão, o Bussunda veio animadíssimo me fazer a revelação: 'Eu sou gordo, mas o Lobão também é!.'"

Reinaldo:
"Eu sou o veterano, o decano, o mais velho da turma. Mas o Bussunda tinha uma atitude como se fosse o cara mais sábio, que chegava nas horas de confusão e tentava harmonizar as coisas, aparar as pontas. Eu me identificava muito com ele por esse lado meio zen. Tem uma matéria bacana que a gente fez junto, aquela de Fernando de Noronha. Foi uma experiência inesquecível na companhia do Bussunda, um cara tranquilão, nos cenários incríveis de Fernando de Noronha. A gente tinha que contracenar com um tubarão e ficava sacaneando o bicho, contando piada sobre a irmã do tubarão pra provocá-lo. Então nossa produção teve que fazer contato com os biólogos mergulhadores da reserva e eles já tinham um animal indicado para essa cena. Era um tubarão velho pra caramba, já conhecido deles. Era tão calmo que pra fazer a cena, o nosso instrutor de mergulho teve que puxá-lo pelo rabo. Ele veio, deu uma voltinha, fizemos a cena e ele voltou para a toca. Nunca pensei que fosse fazer isso, eu e Bussunda contracenando com um tubarão que era mais zen do que a gente."

Maria Paula: "No lançamento do nosso primeiro filme, 'A Taça do Mundo é Nossa', eu estava gravida da Maria Luiza. E em todos os voos que pegamos para as pré-estreias eu passava mal na decolagem e pouso. Todas as vezes que eu ía para o banheiro do avião, o Bussunda ía correndo me ajudar e era aquela cena incrível: os dois naquele banheiro mínimo! Bussunda segurava a minha testa e dizia barbaridades para tentar me alegrar. No dia em que Maria Luiza nasceu, ele foi o primeiro a chegar na maternidade e levou de presente para ela, um boneco fofinho batizado de 'chupetudo' porque tinha uma chupeta na boca. Ela elegeu o Chupetudo seu companheiro de todas as horas e até hoje dorme grudada com ele. Ai de mim se esquecer de levar o Chupetudo para alguma viagem... É o maior chororô!"

Hélio de La Peña: "A gente escreveu várias músicas e o Bussunda fez muita letra. Mas pra cantar, a afinação dele era zero. Tanto que quando a gente começou a fazer show, ele fazia a imitação do Tim Maia mas não cantava, só falava um pedaço do refrão e fazia as piadas reclamando do som. Mas chegou um momento em que a gente começou a ser pressionado pela Ordem dos Músicos, porque a gente não poderia fazer um show musical sem registro de músicos. Íamos ter que tirar a carteira da Ordem dos Músicos. Aí dissemos: 'A gente pode ir lá e cantar umas coisas, mas o Bussunda vai ser um problema'. Então criamos uma situação inédita: a gente fez uma prova coletiva na Ordem dos Músicos. Cantamos todos juntos o reggae da Jamaica, e fomos aprovados em bloco. Se tivesse um mudo no coral, esse mudo também teria saído de lá com registro profissional."


Guilherme Fiúza conta os bastidores da biografia de Bussunda
 

Guilherme Fiúza resolveu escrever "Bussunda - A Vida do Casseta" depois de ler um artigo publicado em um jornal carioca em 13 de julho de 2006, com o título "Bussunda Besserman Vianna". O texto era assinado por Sérgio Besserman, irmão mais velho do humorista. Guilherme gostou tanto do que leu que guardou o artigo. Três meses depois, ligou para o Sérgio e fez o primeiro contato. Em fevereiro de 2007 acontecia a tão esperada reunião com os seis integrantes do "Casseta & Planeta", na sede da produtora deles, em Ipanema. "Esse encontro foi tenso. Todos estavam muito fechados. O livro só deu certo porque fui ganhando a confiança deles gradualmente", lembra. 

Foram mais de 80 horas de depoimentos gravados. O autor -que também escreveu "Meu Nome não é Johnny"-  levou cinco meses para terminar a biografia de Bussunda. Nesse tempo, conviveu com duas perdas importantes: a morte de seu pai e a sua separação. "Esse processo de produção ficou fora da minha rotina. Mas um livro não acaba com o casamento. Acho que foi o meu jeito de sair de uma relação que já não estava boa", justifica o autor. A seguir, uma entrevista com Fiúza.

UOL - O que ficou de fora da biografia de Bussunda?
Guilherme Fiúza
- Nada que eu quisesse. Sou fã de Ruy Castro, mas não sei trabalhar como ele e não gosto de trabalhar como ele. Fazer um fichamento da vida da pessoa cansa o leitor. Não sou bom historiador. Ouvi 50 fontes em oito meses. Era importante achar a linha da vida de Bussunda para fazer o livro. A linha dele era a de um cara anti-convencional que teve a virtude de ser um não-virtuoso. Foi sofrido para ele. Bussunda era um perdedor, mas virou um grande vencedor. 

UOL - Qual foi o trecho mais difícil de escrever?
Guilherme Fiúza
- O mais difícil emocionalmente foi o capítulo da morte de Bussunda. Comecei a me envolver com um amigo que não convivi. Cheguei a sonhar que salvava o Bussunda da morte. Chorei escrevendo o capítulo. Acho que o coração pregou uma peça nele. Como tinha feito exames seis meses antes da morte e não sentiu um formigamento no braço esquerdo, não imaginou que estivesse sofrendo um infarte. Ele achava que era uma ressaca. Além do mais, Bussunda era muito teimoso e tinha devoção ao futebol. Seria muito difícil conseguir interná-lo em plena Copa do Mundo. 

UOL - O livro fala pouco sobre a relação de Bussunda com as drogas. Por quê?
Guilherme Fiúza
- Não acho. Eles pegaram pesado na juventude. Bussunda tomou ácido em Amsterdã. Fumavam baseado na universidade. Ele fumou maconha a vida todo e isso fica subentendido no livro. Acho que o Bussunda drogado poderia ser um título errado de uma reportagem. Morri de medo de o livro virar "Bussunda, o drogado". Ele não se drogava para trabalhar. Todo o processo de criação era feito de cara limpa.

UOL - Você escreveu "Meu Nome não é Johnny" e o livro foi parar no cinema. Gostaria que "Bussunda - A Vida do Casseta" também fosse para a telona?
Guilherme Fiúza
- Acho que a história do Bussunda é importante e densa demais para não ser explorada. Acredito que o cinema seria excelente para mostrar para a massa a trajetória desse cara que tinha tudo para dar errado e deu muito certo.  

UOL - Você passou por uma tragédia pessoal enorme há 20 anos, quando seu filho, de apenas um mês, caiu da varanda do seu apartamento e morreu. Essa experiência te ajudou em algum momento do livro ou vice-versa?
Guilherme Fiúza
- Bussunda dizia que a gente precisa aprender a conjugar o verbo me f.... E foi isso que eu disse para a viúva dele, Angélica, quando ela se mostrou inconformada com a morte do companheiro.

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