UOL Entretenimento Televisão

27/05/2010 - 11h15

"Quando não me pedem autógrafo, fico muito triste", diz Ney Latorraca em entrevista

CARLA NEVES
Do UOL, no Rio

Gianne Carvalho/UOL

Ney Latorraca durante entrevista ao UOL na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (24/5/10)

Extremamente autocrítico, Ney Latorraca odeia se assistir na TV. Dia desses, porém, ao saber que haviam instalado o sistema HD em seu televisor, ele quis se ver em alta definição. "Não é que fiquei bem? Gostei daquele jaleco branco em mim. Estou magro", brinca o intérprete do Dr. Solano em "S.O.S Emergência", da Globo, durante entrevista ao UOL.

Ney marcou o papo na Lagoa Rodrigo de Freitas, bairro da zona sul carioca onde o ator mora e costuma caminhar todos os dias durante uma hora e meia. "Ando oito quilômetros por dia. Dou uma parada, tomo uma água de coco, converso com o vendedor. Adoro quando me reconhecem. Quando não me pedem autógrafo, fico muito triste. Se quisesse privacidade, não sairia de casa", revela o ator, que completa 66 anos no dia 25 de julho próximo.

Com 46 anos de carreira, sendo 36 só de Globo, Ney admite que está adorando a experiência de interpretar um médico na TV. Isso porque ele é declaradamente apaixonado pela classe. "Acho os médicos sensacionais. Vejo pelos meus. Eles não têm horário para nada", opina. Hipocondríaco confesso, ele reconhece que tem médico para tudo: coração, pulmão, estômago... "Tenho que me cuidar, quero ficar bonito para o meu público", diverte-se.

Conhecido pelo bom humor, Ney tem hábitos inusitados. Um deles é chegar para as entrevistas com o currículo na mão. Segundo ele, é dever do ator tratar bem não só o público, mas também a imprensa. "É uma delicadeza com os jornalistas, que às vezes não têm tempo de pesquisar sobre o que estou fazendo", justifica ele, garantindo que não fica magoado quando é chamado de "Neyla". "Não ligo. Sei que as pessoas fazem isso para me sacanear, para encher o meu saco", conta, aos risos.

UOL – Você já declarou ser extremamente seletivo na hora de escolher os trabalhos que vai fazer na televisão. Por quê?

Ney Latorraca – Acho que, nessa altura do campeonato, é um direito meu fazer só o que me dá prazer, saber que vou acrescentar algo com o meu trabalho. Até hoje, tive a sorte de trabalhar em produções que foram apostas dentro da Globo, como "Saudade Não Tem Idade", "TV Pirata", "Anarquistas Graças a Deus", "Rabo de Saia", "Memórias de um Gigolô", "Grande Sertão: Veredas". Mesmo o que fiz e não deu certo, como a novela "Bang Bang", valeu a pena. Foi uma tentativa.

UOL – O que te atraiu no convite para o "S.O.S Emergência"?

Ney Latorraca – O que sempre me atrai, na verdade, são as pessoas que estão envolvidas no projeto. Em "S.O.S" foi saber que trabalharia com o Mauro Mendonça Filho, que peguei no colo, os dois autores, o Marcius Melhem e o Daniel Adjafre, o elenco e a equipe de produção, as pessoas que cuidam de mim. Essa série tem uma coxia muito boa: a Marisa Orth, a Maria Clara Gueiros, o Bruno Garcia. Atualmente, ando encantado com a Fernandinha de Freitas, que contracena mais comigo.

Não gosto dessa coisa de monstro sagrado, do ator virar busto. A gente está no Brasil. Aqui não é Hollywood

UOL – Você gosta de trabalhar com novos atores?

Ney Latorraca – Adoro. Porque, por incrível que pareça, aprendo mais com eles do que eles comigo. Acho que tudo que é novo mexe com nossos valores. Não gosto dessa coisa de monstro sagrado, do ator virar busto, de querer se colocar numa posição superior. A gente está no Brasil. Aqui não é Hollywood. A gente sobrevive do público, da imprensa. Quero ser feliz com o meu trabalho. Quero manter sempre a criança que tenho dentro de mim, deixar ela inteira. Não deixar as pessoas tirarem esse erê que tenho, essa criança que os adultos também têm. Quero invadir o público nos seus recreios.

UOL – Estar no meio televisivo há quase meio século ajuda você a não glamourizar a profissão?

Ney Latorraca – Acho que sim. Na verdade, tenho esse tempo todo de carreira, mas, desde pequenininho, ajudo meus pais. Aos seis anos, já trabalhava e todo dinheirinho que ganhava, dava para eles. Sempre convivi com gente muito humilde. Então para mim tudo é lucro. A vida acabou virando lucro. Sou muito respeitado e muito querido no meu país. Vejo isso quando ando pela Lagoa. É como um termômetro. Tem gente que me chama de Mederix, de "Estúpido Cupido", outros de Quequé, de "Rabo de Saia", de Anabela, de "Um Sonho a Mais", de Barbosa da "TV Pirata", de Vlad, de "Vamp" e assim por diante.

UOL – Como você vê esse carinho que as pessoas têm por você?

Ney Latorraca – Acho que é uma coisa de caráter. A TV é uma grande radiografia. Não há como esconder o jogo. Elas sacam você, o seu trabalho. Por exemplo, brinco que sou metido e ao mesmo tempo acabo virando um ator pop. Porque falo com todo mundo, desde o homem que vende coco até a recepcionista do cinema. Gosto de ligar para as pessoas, perguntar como elas estão. Às vezes um alô que você dá de noite faz toda a diferença. Desde a hora que me levanto até a hora que vou dormir, observo as pessoas. E, como não sei dirigir, tenho uma coisa muito boa: conheço muitas pessoas. Isso para mim é ótimo. É uma janela da vida. Eu fico vendo tudo, escuto as histórias dos motoristas. Outro dia voltei com um motorista da Globo – a produção deu um carro para mim -, entrei no carro e disse: "não tô a fim de falar hoje, tô com a macaca". Aí ele me perguntou se podia colocar um som. Disse que sim. E ele colocou só os boleros que a minha mãe ouvia. Aquilo me deu uma saudade! Vim chorando do Projac até a minha casa. No dia seguinte ele me deu uma cópia do CD. Era Luis Miguel cantando.

UOL – Você pensa muito no público, né?

Ney Latorraca – Penso porque vivo dele. Quem me fez foi ele. Existe uma consciência coletiva. Então não sou eu que faço sucesso. Quem faz sucesso é um grupo, que está pensando em mim. As pessoas determinam. O Ney que chegou no Rio com 29 anos, que está aqui há 36, que já é um carioca, que vai à escola de samba no morro. E uso disso atualmente para fazer o bem. Uma das coisas que acho mais importantes é o meu prestígio para alertar as pessoas e ajudar os meus herdeiros.

UOL – E quem são os seus herdeiros?

Ney Latorraca – O Retiro dos Artistas (RJ), a ABBR (Associação Beneficente de Reabilitação), o GAPA de Santos (Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS) e a Hanseníase de Campo Grande. Em 1996, fiz um testamento, com advogado, tudo certinho. Só que, na época, não abri muito isso. Agora que estou falando porque acho que é importante. Acho que as cortinas se abrem e os aplausos, se eles vierem, não virão mais só pelo trabalho de ator, mas também por uma atitude como cidadão.

UOL – Você nunca quis ter filhos?

  • Gianne Carvalho/UOL

    Ney Latorraca durante entrevista ao UOL na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (24/5/10)

Ney Latorraca – Eu até tentei. Quando fui casado com a Inês Galvão (na década de 80), a gente pensou durante cinco anos. Mas aí na hora não tive coragem.

UOL – Você se arrepende de não ter tido?

Ney Latorraca – Não. Tem que ter talento para tudo.

UOL – Você acha que não teria talento para ser pai?

Ney Latorraca – Para ser pai não.

UOL – Por quê?

Ney Latorraca – Temperamento. Mas gosto muito de crianças. E elas me adoram. Porque respeito muito elas. As pessoas falam assim: "ah, mas você não sabe lidar com criança". Claro que sei! Eu brinco de estátua, de pegador, subo em árvore, me escondo debaixo de armário. Eu sou uma criança, né? Tenho um lado totalmente infantil.

UOL – O Dr. Solano é mais um personagem cômico na sua carreira. Você acha que o humor te persegue?

Ney Latorraca – Acho que o humor na minha carreira veio dos personagens dramáticos que fiz. Só poderia resultar num comediante – e posso falar sem nenhuma modéstia um comediante de mão cheia – porque venho de uma base de Lorca, Shakespeare, Fassbinder, Nelson Rodrigues, Chico Buarque de Hollanda, Drummond, Maquiavel. Na minha opinião, o humor é o gênero mais nobre que existe, o mais difícil.

UOL – Por quê?

Ney Latorraca – Porque fazer sorrir ou provocar uma gargalhada no momento que a gente vive – não só no Brasil, mas no mundo inteiro – é uma vitória. E é difícil de conseguir. E com nível, acreditando na inteligência do público, é ainda mais. Tanto que, no mundo inteiro, o comediante é considerado o ator completo, que faz tudo. E o ator é aquele que só faz um gênero. Ou é galã, ou é vilão, ou só faz o advogado. O comediante não. Ele tem todas as gamas. Se me derem um texto dramático, vou fazer todo mundo chorar. Mas acho mais fácil.

UOL – Qual é a melhor parte da sua profissão?

Ney Latorraca – É saber que através dela posso mudar a sociedade, trazer recados. Acho que o ator veio ao mundo com a missão de mudar a sociedade. Somos quase predadores, no bom sentido. Atitudes como a de uma Leila Diniz, por exemplo, que aparece com a barriga de fora, quebram paradigmas. Tanto que em qualquer movimento, em qualquer ação voltada para a sociedade, sempre vão estar na primeira fila os atores. Não só os atores, mas os artistas de um modo geral. Os artistas plásticos, os bailarinos, os cantores, os atores, os músicos. Nós somos o espelho do país. Depois dos ingleses, os melhores atores do mundo são os brasileiros, na minha opinião.

UOL – De todos os personagens que você já fez, qual é o seu predileto?

Ney Latorraca – Acho que meu grande personagem é o Ney Latorraca. É o mais forte. Depois é o Quequé, de "Rabo de Saia". E também tem um que amo que é o Ernesto Gattai de "Anarquistas Graças a Deus". Ah, o Vlad, de "Vamp" é uma gracinha também. O Barbosa, da "TV Pirata" adoro. Mas o Quequé é que muda a situação mesmo. Na época ia fazer 40 anos, estava no auge. Tinha a Dina Sfat, a Lucinha Lins, a Tássia Camargo do meu lado. Com ele, ganhei todos os prêmios, os mais importantes da televisão. A novela teve um grande ibope. Arrebentou a boca do balão. Virou verbo, quequezar. Foi bom. Enfim, tem vários personagens que gosto. Mas o melhor é o Ney.


 

Compartilhe:

    Hospedagem: UOL Host