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13/02/2009 - 07h12

Lima Duarte fala de Shankar e do "assustador" sistema de castas

PopTevê
Ele nasceu em um pequeno povoado de Desemboque, interior de Minas Gerais - mas já foi português, turco e grego em seus 58 anos de carreira televisiva. Agora, Lima Duarte rouba a cena na pele de um indiano: Shankar, um dos brâmanes de "Caminho das Índias". Para dar vida ao personagem, membro da casta sacerdotal indiana, o ator precisou mergulhar profundamente na cultura daquele país. "Foi uma preparação grande. Tivemos palestras de professores da Unicamp, aulas de dança, de comportamento, de prosódia", enumera, mencionando a preparação do elenco, iniciada em agosto de 2008.

LIMA DUARTE FALA DE SEU PERSONAGEM EM "CAMINHO DAS ÍNDIAS"

"Isso nos deu uma visão do que é o hinduísmo e subsídios para a composição. Quando a gente se aprofunda nessa cultura, é realmente maravilhoso o que a gente aprende e apreende", diz.

Dono de uma extensa e respeitável galeria de personagens que marcaram a história das telenovelas, Lima não esconde o orgulho pelos trabalhos. Do divertido Zeca Diabo - que viveu pela primeira vez em "O Bem Amado", de 1973, e depois por mais quatro anos no seriado homônimo exibido nos anos 1980 - ao mais recente Afonso Lambertini, que conquistou o público em "Da Cor do Pecado", ele garante que o segredo para conseguir a empatia do telespectador é o entusiasmo constante. "O suporte do meu trabalho é a paixão. Isso em todos os personagens que faço. A paixão é a plataforma para tudo", explica.

A carreira bem-sucedida é um ponto em comum com Shankar. Pai de criação do protagonista Bahuan, de Márcio Garcia, o personagem orgulha-se de ter vivido segundo os preceitos hindus - os mesmos que o orientam a desligar-se da vida material para se dedicar ao espírito. O objetivo é se libertar da Samsara - palavra do idioma sânscrito que significa "perambulação" e identifica o processo contínuo de reencarnação da alma.

"Ele quer se livrar dessa roda das encarnações, por isso começa a se desprender do mundo material. O Shankar quer ser um renunciante, como Ghandi", compara Lima, referindo-se a Mahatma Gandhi, indiano que nasceu em uma família abastada e que acabou se convertendo em um respeitado líder político e espiritual, defensor do princípio da não-violência.

O Shankar é um dos personagens através de quem a autora aproveita para passar conceitos da vida indiana. O que mais o impressiona, nessa cultura?

Acho que a sociedade de castas. É algo surpreendente, interessante e assustador. Mesmo com o governo querendo acertar essas coisas, mudar os padrões de comportamento, é difícil. A tradição está no coração das pessoas, e isso é algo muito complicado de transformar.

O Shankar está se desprendendo do mundo material para se dedicar à elevação espiritual. Fazendo um paralelo, você pensa em se aposentar depois de tantos anos de carreira?

Não me imagino aposentado, não. Ainda quero trabalhar muito tempo, acho a profissão de ator encantadora. Essa possibilidade de viver outros sonhos humanos, outras culturas, é incrível.
Definitivamente, não penso em me transformar em um renunciante...

Considerando o prestígio da sua carreira e seu tempo na profissão, você tem a prerrogativa de dizer "não" a um papel na TV?

Eu trabalho há mais de 50 anos, e posso afirmar que recusar papel é algo que não passa pela minha cabeça. O que faço é discutir, quando, às vezes, acho que o personagem não é interessante. Não digo "não" para nada. Nem "sim", aliás. Procuro ser sempre bastante político, como um bom mineiro.

Como um pioneiro da TV, o que acha da crise que o veículo vem sofrendo, com diminuição da audiência?

Não acredito que essa crise vai abalar a TV, porque o povo precisa de fantasia para viver. É muito difícil viver em um país em desenvolvimento como o Brasil, cheio de desigualdade social, de fome, de miséria. A TV acaba sendo responsável por levar sonhos e esperança para as muitas pessoas que têm dificuldades em encontrá-los.

(Por Louise Araujo) Comente essa e outras notícias no Fórum UOL Televisão

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