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08/03/2005 - 16h37
Boxe ainda atrai cineastas e inspira novo "reality show"


Por Randy Williams

LOS ANGELES (Hollywood Reporter) - O diretor Robert Wise apresentou em 1956 a história verídica da ascensão de Rocky Graziano, de menino de rua de Nova York para campeão mundial de boxe, no filme "Marcado pela Sarjeta" ("Somebody Up There Likes Me"). Logo nas primeiras cenas, Sal Mineo diz a Paul Newman (Graziano): "Caras como nós não têm chance, não é mesmo?"

Mas Graziano teve sua chance na vida, sim. E foi justamente essa oportunidade de superar barreiras sociológicas e alcançar o sucesso que transformou o boxe e seus lutadores em material farto para algumas das mais famosas narrativas de Hollywood.

Depois do sucesso estrondoso de "Menina de Ouro" no Oscar deste ano, o guru dos "reality shows" Mark Burnett se propôs a levar os elementos já testados e aprovados da luta para a telinha com o seriado "The Contender" ("O Adversário"), que estreou na NBC na noite desta segunda-feira (7).

Burnett reconhece que grande parte da atração do programa se deve ao tema da mobilidade social ascendente, que já foi pano de fundo de muitos filmes de Hollywood sobre o boxe.

"Histórias sobre pessoas que vieram de origens pobres -- americanos gostam disso", disse o britânico Burnett, que hoje é promotor de lutas de boxe na Califórnia e no Nevada.

O formato de "The Contender" incorpora elementos de alguns dos sucessos atuais da TV-realidade criados por Burnett, como "Survivor" e "O Aprendiz". Dezesseis pugilistas vivem e treinam juntos enquanto disputam um prêmio de US$ 1 milhão. Cada episódio termina com uma luta em cinco rounds, cujo perdedor é eliminado.

CINEMA E O ESPORTE

Desde que boxe e o cinema primeiro se aproximaram, nos anos 1890, sempre formaram uma dupla de sucesso. Filmes das principais lutas por prêmios eram exibidos nos cinemas dos EUA, tornando-se um fenômeno e chamando a atenção de Hollywood, que começou a levar elementos do esporte para suas histórias dramáticas.

Hollywood começou a manifestar um saudável respeito pelo esporte a partir dos anos 1920 e 1930, com "O Boxeador" e "The Champ", até a era de ouro dos filmes de boxe, nos anos 1940 e 1950, com "Corpo e Alma" ("Body and Soul"), com John Garfield, e "Punhos de Campeão" ("The Set-Up"), de Robert Wise -- filme raro que foi rodado em tempo real.

Com o ex-boxeador John Huston dirigindo Stacy Keach e Jeff Bridges em "Cidade das Ilusões" ("Fat City"), a imensa popularidade da franquia "Rocky", com Sylvester Stallone, e a maestria inconteste de "Touro Indomável", de Martin Scorsese, o boxe não parou de fazer sucesso na tela.

E esse sucesso voltou a se manifestar em 27 de fevereiro, quando "Menina de Ouro", de Clint Eastwood, recebeu o Oscar nas categorias melhor filme, diretor, atriz (Hilary Swank) e ator coadjuvante (Morgan Freeman).

BOXE ESPELHA A VIDA

O historiador do boxe Bert Sugar, ex-editor da revista Ring, está trabalhando com o cineasta Spike Lee e o roteirista Budd Schulberg sobre um filme sobre o lendário campeão Joe Louis.

O que torna o esporte atraente para Hollywood é que ele possui os elementos para grandes narrativas.

Desde "The Champ", com sua história de amor entre pai e filho, até o ainda inédito "Cinderella Man", em que Russell Crowe fará o amado pugilista Jim Braddock, da época da Grande Depressão, o esporte atrai aos cineastas e cinéfilos porque traz em seu bojo temas universais como a esperança e a mobilidade social.

"A essência do boxe é que ele reduz o conflito a seus componentes fundamentais", disse o documentarista Ken Burns, da minissérie "Unforgivable Blackness", sobre a vida do polêmico campeão dos pesos pesados Jack Johnson.

"Você tem duas pessoas, em essência nuas, se enfrentando num ringue, usando não apenas sua força física, mas também sua força psicológica para tentar derrotar uma à outra. Nada poderia ser mais interessante do que isso, num nível dramático."