Lázaro Ramos estuda o homem moderno em "Sexo Frágil"

Por Marta Hurtado

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Um jovem prático, impulsivo, politizado e muito sensível. Esse é Fred -- mas também é uma descrição perfeita de Lázaro Ramos, o ator que o interpreta.

Fred é um dos quatro personagens principais de "Sexo Frágil", nova minissérie da TV Globo, que estreou na sexta-feira com 22 pontos de audiência -- um a mais da média de seu antecessor, "Os Normais", que ficou três anos no ar.

Visto como um dos melhores atores brasileiros jovens da atualidade, Ramos vê a série como uma reflexão sobre o homem atual.

"Ele está profundamente perturbado diante da mulher moderna, que é segura e independente mas, ao mesmo tempo, pede nossa atenção", disse Ramos numa entrevista à Reuters, concedida em sua casa.

O ator baiano de 24 anos negou que o humor possa diluir as reflexões sérias expostas na série e rejeitou a idéia de que ela aborda seu tema de maneira estereotipada.

"Nada disso", disse. "O humor atinge um nível muito subjetivo das pessoas, as relaxa, mexe com sua sensibilidade. Embora não se possa comparar a série com um filme político como 'Madame Satã"', continuou, se referindo ao filme que ele protagonizou em 2002.

Dirigido por Karin Ainouz, "Madame Satã" narra a vida de João Francisco dos Santos, um travesti negro e rei da boemia do bairro carioca da Lapa nos anos 30.

"Nem Karin nem eu queríamos fazer com 'Madame Satã' um simples filme sobre um personagem histórico. Vimos o filme como desculpa para falar da discriminação e da aceitação, por meio de um homem que disse 'sou negro, pobre e gay -- e sou feliz'."

Por seu trabalho em "Madame Satã", Ramos ganhou os prêmios de melhor ator nos festivais de cinema de Huelva (Espanha), Quito (Peru) e São Paulo, além do troféu de melhor ator da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Foi seu primeiro trabalho como protagonista, que o consagrou como "ator revelação" de 2002, além de confirmar para o grande público o que já vinha sendo mostrado nas mais de 14 peças de teatro em que Ramos trabalhou com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador, destacando-se com a peça "A Máquina".

CONSCIÊNCIA RACIAL

O ator, que interpretou Sancho Panza na peça de 1998 "Um Tal de Dom Quixote", se surpreendeu com a receptividade do público, que o tratou como uma novidade, já que era um negro interpretando um personagem espanhol.

"É um problema cultural que ainda não superamos. O ideal dominante de beleza é muito europeu, e nós, negros, continuamos restritos a papéis específicos para negros. Eu, pessoalmente, sou um privilegiado."

Há quatro anos, Ramos decidiu dirigir uma peça infantil escrita por ele mesmo, enaltecendo a diversidade e protagonizada por um ator negro.

"As crianças negras precisam se ver na tela, no palco. Isso é essencial para sua auto-estima. Para mim, teria me ajudado muito."

"Paparutas" ficou em cartaz durante dois anos num teatro de Salvador, mas ele quer melhorar a peça e apresentá-la no Rio de Janeiro.

Seu primeiro papel na Globo foi uma participação especial em "Pastores da Noite", no ano passado. Este ano ele estrelou o longa "O Homem que Copiava" e "Carandiru", de Hector Babenco, trabalho que irá disputar uma vaga pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

Ramos não pretende desaparecer de cena em 2004. Além de participações especiais nos filmes "Nina" e "Quanto Vale ou é por Quilo?", será visto em "Cafundó", longa-metragem sobre a vida e obra do padre João de Camargo. Em janeiro, começa a trabalhar nas filmagens de "Cidade Baixa", de Sérgio Machado.

E na cabeça ele guarda um sonho: produzir e estrelar "A Missão", peça de Henri Muller sobre a guerra no Haiti, "uma obra absolutamente política".

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