Guerra de palavras e imagens permeia combates no Iraque

Por Merissa Marr, correspondente de mídia européia

LONDRES (Reuters) - De acordo com o que já foi publicado na mídia sobre a guerra, o líder Saddam Hussein pode já estar morto, o Iraque pode ter executado prisioneiros de guerra britânicos e um míssil iraquiano pode ser o responsável pela explosão que destruiu um mercado em Bagdá. Mas a realidade pode ser bastante diferente.

A cada dia que passa, afirmações e desmentidos são disparados na imprensa, enquanto Washington, Londres e Bagdá brigam numa guerra acirrada de palavras e imagens.

Na batalha que se desenrola na televisão, a estratégia de mídia está se mostrando tão importante quanto a tática militar, enquanto Saddam Hussein, George W. Bush e Tony Blair se esforçam ao máximo para fazer a opinião pública pender para seus respectivos lados.

O resultado tem sido, em vários momentos, um rastro de confusão, com alegações sobre supostos acontecimentos dramáticos sendo desmentidas em questão de horas.

"Com um noticiário de TV constante, 24 horas por dia, muitas vezes não há tempo para análises e considerações, e os jornalistas estão virando vítimas de erros e propaganda política", disse Jamie Cowling, do Instituto de Pesquisas em Política Pública de Londres.

É o caso do que aconteceu em Umm Qasr.

De acordo com relatos no domingo 22 de março, o porto no sul do Iraque teria caído diversas vezes. Mas foi apenas na terça-feira que as forças lideradas pelos EUA conseguiram dominar com firmeza o local, ponto-chave de entrada no Iraque.

Na terça-feira foram ouvidos relatos sobre um "levante maciço" dos iraquianos em Basra, a segunda maior cidade do país. O Iraque qualificou a notícia como "alucinação", e os canais de televisão árabes mostraram imagens das ruas de Basra calmas.

Blair acabou por admitir que ocorrera apenas um "levante limitado".

É difícil identificar o que é informação equivocada e o que é propaganda. Os esforços feitos pela Grã-Bretanha na sexta-feira para amenizar a afirmação de Blair de que o Iraque teria executado prisioneiros de guerra britânicos realçou exatamente esse dilema, disseram especialistas em mídia.

JORNALISTAS CRITICADOS

Parte do problema é o caráter imediato das notícias veiculadas na TV.

Numa guerra politicamente arriscada para Bush e Blair, os EUA e a Grã-Bretanha "implantaram" mais de 500 jornalistas em suas unidades militares.

Munidos de equipamentos de alta tecnologia, os jornalistas vêm enviando relatos minuciosos a suas emissoras de TV que transmitem noticiários 24 horas por dia, muitas vezes sem poder checar a veracidade dos fatos que relatam.

Mas as tropas na linha de frente dos combates não têm uma visão mais ampla da guerra. Além disso, os jornalistas implantados enxergam o conflito apenas desde um ângulo e frequentemente falam em "nós" e "eles".

De acordo com a legista e defensora dos direitos humanos palestina Hanan Ashrawi, a mídia ocidental, apesar de toda sua tecnologia e seus recursos, "virou monolítica, simplista e propagandística".

Enquanto isso, o governo iraquiano adotou uma campanha de mídia econômica e centralizada.

O Iraque não tem repórteres implantados. Mas seu ministro da Informação fala diariamente com a imprensa, apresentando um relato resumido do que sempre é descrito como as mais recentes vitórias do Iraque.

O próprio Saddam Hussein também aparece com regularidade na televisão estatal iraquiana, em parte para mostrar ao outro lado que ainda está vivo.

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