Horário gratuito é chato mas funciona, dizem especialistas

Por Thiane Loureiro

SÃO PAULO (Reuters) - Comparado a qualquer outro programa televisivo, o horário eleitoral gratuito pode ser chato, sem-graça e repetitivo, mas, segundo especialistas em TV, é exatamente assim que os candidatos plantam uma semente na intenção de voto do telespectador.

"O horário eleitoral tem esse formato porque é assim que ele funciona", disse à Reuters o coordenador do núcleo de TV da PUC de São Paulo, Gabriel Prioli.

"Se o horário eleitoral fosse um programa comum, seria um fiasco. Mas ele é feito para criar um herói com a única meta de ganhar a eleição, enquanto um programa qualquer pode apenas entreter."

Com o custo total da propaganda política é possível produzir cerca de cinco programas de TV sofisticados, de acordo com Prioli. Os melhores jornalistas, produtores, câmeras, publicitários e marqueteiros do mercado estão por trás de cada segundo exibido.

Seu único limite é o tempo, não a audiência. Isso porque mesmo que uma pessoa não acompanhe a propaganda política diariamente, ela sempre acaba vendo um ou outro programa e o horário eleitoral é pensado para atingir tanto quem assiste todos os dias quanto quem vê de vez em quando.

Mas Prioli acha que o primeiro dia de propaganda eleitoral na terça-feira foi pouco criativo. "Eles precisam adicionar mais verdade ao que dizem, ao invés de serem escravos do teleprompter. O uso de mais reportagens e 'povo-fala' pode ajudar a dar mais ousadia", diz.

O professor e crítico de TV Eugênio Bucci acredita que a estréia esteve de acordo com a estratégia dos candidatos. "Cada um tem seu objetivo. Por exemplo, enquanto Serra vai no tudo ou nada, Garotinho não tem o que perder", diz ele.

Bucci afirma ainda que o embate entre José Serra (PSDB-PMDB) e Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, deverá ser responsável pelos momentos mais quentes do horário eleitoral. "Todo mundo vai querer ver aonde isso vai parar."

LULA E SERRA FORAM OS MELHORES

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um bom programa à tarde, quando exibiu uma visita a um estaleiro em Angra dos Reis, mas deixou a desejar no horário da noite ao mostrar imagens de sua equipe e de comícios -- cenas já vistas em propagandas do PT.

Apesar disso, ganhou uma boa avaliação dos especialistas por ser o candidato com mais carisma no discurso. "Só aquelas palmas dos militantes no comitê ficaram horríveis. Foi um erro de dosagem", afirma Prioli.

Mas foi Serra quem de fato agradou aos analistas. À tarde, o tucano revelou sua biografia com imagens de arquivo de seus principais feitos políticos e depois foi entrevistado pela jornalista Valéria Monteiro.

Durante a noite, sua biografia ganhou ar de documentário, mesclando a narração do apresentador Gugu Liberato, em um cenário à la Globo Repórter, com as mesmas imagens da tarde.

Para Bucci, o horário do tucano "foi opulento, sem limites de produção, com cenas caras e muito ritmo."

O jingle de Serra, que lembra uma propaganda de cerveja, também foi visto como uma estratégia bem aplicada. "É comum você comprar os direitos de uma música que já pegou e usá-la para fixar o candidato na mente dos eleitores. É ainda melhor se a escolha é por uma dessas músicas que grudam na cabeça", ressalta Prioli.

Os ataques a Ciro no final do programa tucano foram saudados pelos especialistas. Prioli explica que o fade (tela negra) que precedeu as cenas denegridoras serviram para deixar esses ataques colados à propaganda do ex-governador do Ceará, como se fossem a introdução do programa, neutralizando as mensagens que vieram a seguir e deixando um ar de anonimato sobre sua autoria.

CIRO E GAROTINHO DECEPCIONAM

Houve consenso entre Prioli e Bucci de que Ciro Gomes teve uma estréia fraca no horário gratuito. "Foi um programa previsível e pobre (em recursos)", diz Bucci.

No programa da tarde, Ciro usou imagens da mulher, a atriz Patrícia Pillar, de comícios, carreatas e obras no Ceará sem fazer qualquer declaração direta à câmera.

O programa da noite mudou, mas Patrícia Pillar não voltou a aparecer. "Vai ver que ele não quis passar a impressão de que vai explorá-la logo de cara", comenta Prioli.

Já Anthony Garotinho (PSB) teve a aprovação de Prioli ao se comparar com Juscelino Kubistchek e Getúlio Vargas, duas figuras emblemáticas da história política do Brasil no século passado, tentando criar "uma identidade". Bucci, porém, acredita que essa comparação foi um erro. "Ninguém acha que ele é a reencarnação do Juscelino. Dá para ver que ele não se leva a sério", afirma.

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