Lucas Mendes: Tevê em transe

Há seis televisões na minha casa. Estão nos quartos, banheiro, cozinha... imagine se eu gostasse de televisão.

Esta invasão televisiva aconteceu quando trabalhava na Globo. Vivia bipado - era pré-celular - e ligadão nos noticiários porque de uma hora para outra nós, repórteres e cinegrafistas, íamos para El Salvador ou Egito com pouco mais do que a roupa do corpo.

Saí da Globo mas as tevês ficaram, uns mostrengos da Sony que funcionam com perfeição e não tenho coragem de jogar fora.

Fora dos noticiários, assisto reprises do Seinfeld, talk-shows, filmes, umas duas ou três séries, em especial na TV pública, futebol europeu e os comediantes.

Assisto ao mesmo tempo que leio uma revista, um jornal ou um livro, em sistema de multitarefa, e no fim da noite quase nada fica na memória.

Nesta greve cansei dos repetecos dos comediantes, em especial dos monólogos do Letterman, do Leno e do Ferguson que voltaram esta semana. Fora deles meu oxigênio televisivo não foi comprometido.

Apesar da greve o mundo da televisão está próspero como nunca. A audiência da temporada 2006/2007 foi recordista, mas a TV aberta levou mais um baile da TV por assinatura e pode sentir falta de ar se a greve não for resolvida logo.

Na última greve dos escritores - em 1988 - as tevês por assinatura deram um salto na audiência e continuam a tirar nacos das abertas.

Este ano um dos maiores sucessos críticos foi Mad Men, no canal da TV por assinatura AMC, escrito pelo mesmo autor de Sopranos.

A história, muito nova-iorquina, tem apelo universal porque lida com produtos à venda no mundo inteiro e com nossas emoções de cada dia. Você não deve perder quando chegar no Brasil.

O título é um jogo de palavras: Mad Men significa homens loucos e significa também os homens que trabalham na avenida Madison. Das décadas de 50 a 80 era a capital mundial da publicidade e até hoje é o endereço de algumas das maiores agências.

Quando surgiu a televisão nos Estados Unidos, a publicidade mergulhou de corpo e alma na nova mídia e a transição do rádio para a TV foi a toque de caixa.

O seriado Mad Men conta esta história com detalhes preciosos tanto sobre o mundo da publicidade como da sociedade da época. Algumas agências pareciam bordéis, com transas constantes entre os executivos e as secretárias, sempre solteiras em busca de um casamento.

As esposas eram domesticadas, esperavam seus maridos nos subúrbios, banhadas, bem vestidas, penteadas, com os drinques na bandeja e um menu variado na mesa. Durante o dia morriam de tédio.

Na Madison choviam dólares: as campanhas políticas, em especial a de Nixon, Israel e Brasil gastavam em busca de turistas, mas a campeã de gastos na publicidade era e ainda é a Procter & Gamble, com seus produtos de beleza e higiene do corpo e da casa.

A Procter já tinha inventado as novelas no rádio e foi a mãe da telenovela. Guiding Light comecou no rádio em 1952, fez uma transição fácil para a tevê e está no ar até hoje.

E para onde vai a maior anunciante da tevê americana? Ano passado lançou Crescent Hights, uma novela com episódios de três minutos na internet. A tevê está em transe.

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